Angela Gomes
 
 
 

segunda-feira, maio 12, 2008

Estranhos Prazeres

Fazendo uma pesquisa na internet sobre os filmes do Debord encontrei por acaso uma discussão sobre o filme Crash: Estranhos Prazeres (1996). Vi esse filme há vários anos e ainda me lembro da estranheza que senti, enfim...

Achei interessante compartilhar parte do artigo, também pela referência ao engarrafamento de mais de 200km em São Paulo.
Conclusão:
Ballard nos conduz a um mundo ambíguo e contraditório - onde as armas de destruição em massa e os comerciais de automóveis são consumidos entre goles de refrigerantes e fornadas de pipoca para micro-ondas - dominado pela propaganda, pelas celebridades vazias, pela pornografia e temperado pela crença na ciência, na religião, no politicamente correto. Tudo é um só e confuso espetáculo mediático, no qual ninguém se impressiona com mais nada e os espectadores só querem saber do novo, só espectar e esquecer suas dores. Esse nada mais é que o nosso mundo, aquilo que chamamos de realidade social – “sociedade do espetáculo” -, na sua forma imagética e avassaladora. Em suma, um mundo movido a sexo e paranóia, onde qualquer demanda material pode ser satisfeita quase que instantaneamente, desde que se possuam recursos para tanto, é claro. Mas quanto mais consome o espectador alienado, tanto menos “compreende sua própria existência e seu próprio desejo”. (Debord, 1997, p.24) É como se vivêssemos continuamente uma novela sem fim, redigida por alguém carente de existência. Um deus ex machina, talvez? Assim, a tarefa do escritor não é criar a ficção, acelera Ballard, mas inventar a realidade. Pois o mundo em que vivemos, para ser compreendido, necessita ser interpretado como um sonho, fazendo-se a distinção entre conteúdo latente e conteúdo manifesto, isto é, entre real e realidade. “É a própria realidade que agora necessita da ‘suspensão da descrença’, outrora prerrogativa da arte” (Bauman, 1998, p.158). Por isso, CRASH não trata apenas do cataclismo que mata milhares e aleija milhões de seres humanos anualmente - enquanto as petrolíferas lucram arrancando das rochas a energia que fomenta esses desastres, e outros tantos e tantos mais -, numa cadeia alimentar cujo predador máximo é a máquina. Vivemos para elas, somos seus escravos. Trabalhamos para tê-las, para alimentá-las e protegê-las. Nossa vida parece só ganhar sentido quando as possuímos. Absorve-se a mensagem que a publicidade – esse “cadáver que nos sorri” (Toscani, 1996) – imprime em todos os circuitos eletrônicos e cerebrais, o fetiche tecnológico máximo: ‘meu carro, meu tesouro’, a face mais visível do sucesso nesse mundo feito mercadoria. Na nossa cultura do simulacro, “é preciso ver no carro um objeto-mulher” – objeto erótico, idealmente belo, submisso, manipulável -, que agrupa “determinações psicossexuais profundas” (Baudrillard, 2004, p.77). Lindas mulheres nos vendem carros perfeitos, mulheres perfeitas se conseguem com lindos carros, tanto faz... A pergunta a ser feita é: não é o desastre de carro o casamento perfeito entre sexo e tecnologia de um lado e a morte de outro? Pois o gozo, no seu limite, se confunde com a morte. Mas por que o gozo precisa se apoiar na transgressão e na dor a fim de gozar plenamente? Pois quando avançamos em direção a esse “vazio central (...), forma que se apresenta para nós o acesso ao gozo, o corpo do próximo se despedaça”. (Lacan, 1988, p.246) Isso não torna a trombada um meio exemplar para expressarmos nossas psicopatologias num amálgama de desejo e dor? Em síntese: o automóvel é objeto de desejo e, ao mesmo tempo, caixão. CRASH não é só uma imagem sexualizada do carro, carbura Ballard (1997, p.07), mas uma metáfora total para a vida humana na sociedade atual: “CRASH é o primeiro romance pornográfico baseado na tecnologia”. Tecnologia pervertida pela automação do gozo, sempre parcial, pois sua expressão completa é contígua à dor e à morte, na união simbiótica entre o corpo humano e a máquina. Pois o que caracteriza a perversão é a exclusividade do prazer auferido sempre pela mesma via: inexiste aqui julgamento de valor. E se a mistura entre sexo e acidente de carro nos parece algo estranho, nada mais é porque se inclui naquela “categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar” (Freud, 1986/1919, p.277).
 

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